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Estamos ficando ultrapassados 24/10/2009

Posted by gxexeo in Idéia, Opinião.
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Estamos preparando nossos alunos de acordo com um paradigma ultrapassado.

  • Pensamos em computadores e algoritmos, PORÉM nossos egressos trabalham com pessoas e processos.
  • Pensamos em preparar pessoas especializadas capazes de aplicações com se detivessem um segredo do universo, programadores míticos, PORÉM qualquer um pode gerar aplicações, basta um pouco de vontade, uma planilha eletrônica ou outros super-meta-aplicativos fáceis de usar, como o Access.
  • Pensamos em bases de dados controladas, modelos de dados construídos, PORÉM os dados estão descontrolados, são criados de qualquer forma em qualquer lugar. Nas empresas, as planilhas se transformaram no padrão de fato de manipulação de dados. Na Web, nem entendemos o que está acontecendo.
  • Pensamos em linguagens de programação do tipo bondage and discipline, PORÉM linguagens libertárias, como Python e Ruby nos provam que podemos ser mais produtivos de forma totalmente diferente.
  • Pensamos em infra-estruturas locais, PORÉM a cada dia a opção “em nuvem” se torna mais economicamente viável e segura.
  • Pensamos em equipes de trabalho pré-organizadas, PORÉM o desenvolvimento de software livre e mesmo nas empresas é cada vez mais auto-organizado.
  • Ensinamos programação em ponto pequeno, PORÉM o verdadeiro problema são os sistemas emergentes que estamos criando.
  • Ensinamos exaustivamente a manipulação de estruturas básicas, PORÉM as ferramentas para manipulá-las estão desenvolvidas e são oferecidas de graça em todas as linguagens modernas, em implementações eficientes. Quando e por que usá-las é o verdadeiro problema.
  • Nosso mundo exige profissionais e pesquisadores “contextualizados”, “personalizados”e “flexíveis” e capazes de trabalhar em ampla gama de tarefas PORÉM uma das nossas principais bandeiras é um currículo padronizado e profissões bem definidas.

Como preparar o profissional de Computação, seja Ciência, Engenharia ou Sistemas de Informação, para interagir com usuários, externos e internos, capazes de gerar quantidades imensas de conteúdo e também de aplicações? Como preparar outros profissionais com a quantidade de exata da Computação que eles precisam?

Como preparar nossos alunos para viver em um mundo onde mudanças paradigmáticas acontecem periodicamente, por causa de poucas pessoas ou empresas? Web, Amazon, Ebay, Google, Facebook, iPhone, Wii, Twitter, Cloud Computing, GoogleDocs, YouTube, Blogs, Wikipedia, PayPal, Google Wave, etc. A cada aplicação, um novo mundo para entender.

Não quero dizer que tudo que fazemos está totalmente errado, mas vejo uma grande semelhança em todas as denominações que damos aos nossos cursos. Vejo  currículos que não fornecem estas respostas, ou melhor, não fornecem nenhuma resposta a pergunta “Porque ensinamos assim”.

Está na hora da Computação estudar a si mesma para poder se entender melhor e, pelo menos, preparar uma postura em relação ao futuro.

Está na hora de currículos mais justificados, baseados em competências, com grande liberdade de escolha para os alunos e permitindo o estudo de outras áreas de conhecimento.

Aliás, ao contrário do que muitos acreditam, um currículo de referência pode ser uma solução errada para a pergunta errada. Estamos em um novo mundo onde a contextualização e a personalização vão dominar. Currículos padronizados não atendem esse novo mundo.

Ao contrário de criar currículos extensos, como o da própria SBC, deveríamos criar patentes, uma variedade delas, que permitissem a cada aluno construir sua  árvore do conhecimento.

Ao invés de padronizar cursos, deveríamos incentivar a inovação e a busca de alternativas. Repetimos o mesmo curso em cada Universidade e nossos alunos tornam-se cópias de cópias de cópias de clones. Todos com os mesmos defeitos e qualidades.

A sensação é que, na ânsia de nos tornarmos uma “ciência séria” estamos nos conformando ao modelo atual e ultrapassado da família física-química-engenharia-matemática e ainda direito-medicina em vez de assumir que a Computação já definiu um novo mundo e que tem que criar uma nova forma de fazer ciência.

Pensamos na Universidade como uma máquina fordistataylorista e o mundo é just-in-time, customizado, globalizado. Pensamos em médias, mas a inovação está na cauda longa.

Leitura recomendada:

Socialnomics, The World is Flat, The Long Tail, Inteligência Coletiva, Tecnologias da Inteligência,

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Habilidades e Currículos 23/09/2009

Posted by gxexeo in Idéia, Quase filosofia.
1 comment so far

Enquanto nos preocupamos em criar currículos de referência, cursos com nomes padronizados e regulamentar a profissão, o mundo muda e oferece cada vez mais e mais variadas oportunidades de trabalho ligadas a Computação.

Convivendo diariamente em uma instituição de pós-graduação em Engenharia, ao meu redor vejo que grande parte dos trabalhos envolve, de uma forma direta ou indireta, o uso de computadores e a criação de aplicações específicas. Em outras áreas, como Educação e Medicina, apesar do efeito não ser tão grande, também é bastante relevante.

Isso me faz perguntar se estamos corretos em nos preocuparmos tanto com limitar o espectro do que é chamado de Computação. Criada entre 1940 e 1950, não possuindo 70 anos completos, a Computação ainda é uma mistura de Matemática, diferentes formas de Engenharia e muitas outras ciências. Tem a característica de ser aplicável em todas as áreas do conhecimento. E dia a dia, com o aparecimento de novas aplicações, fica claro que certamente ainda não entendemos todo o seu potencial.

Se somos constantemente surpreendidos por novas teorias ou aplicações, como imaginar que podemos limitar o escopo da pesquisa, trabalho e ensino na área?

Como exemplo podemos citar apenas duas novidades que apareceram nos últimos 10 anos: software para celulares e as redes sociais. Ainda não entendemos como aproveitar as oportunidades disponíveis, como desenvolver software para esses ambientes e qual o modelo econômico que podemos usar. Não é difícil imaginar umas três ou quatro cadeiras que poderiam ser criadas, em qualquer curso ligado a Computação, para cobrir esse espectro. Outras áreas inexploradas dos nossos cursos são tratamento de enormes quantidades de dados, TV interativa, sistemas ubíquos e, o que mais me preocupa, a próxima onda.

O que proponho é a troca do currículo mínimo referencial para um estudo das habilidades relacionadas a Computação e, a partir dessas habilidades, uma tabela de referência com assuntos e bibliografias. Um conjunto dessas habilidades formariam o núcleo de habilidades computacionais, que seria apenas fortemente sugeridas para qualquer curso que quisesse se dispor a ser certificado pela SBC.

Como exemplo, vou propor uma habilidade núcleo: a capacidade de manipular funções. Essa habilidade pode ser criada de várias formas: o estudo matemático de funções, o estudo de linguagens funcionais,  o estudo de formas específicas de entender funções (como o cálculo lambda). Definir previamente a forma, em um currículo, sem antes determinar as habilidades, provoca cursos padronizados, por isso iguais e incapazes de demonstrar a variedade da Computação.

Não por acaso, existem estudos sobre o assunto de como descrever o conhecimento das pessoas. Pierre-Levy e Michel Authier propuseram o conceito de Árvore do Conhecimento, onde conhecimentos específicos são representados por Patentes e um conjunto de Patentes forma o Brasão das pessoas. Já aqui na COPPE trabalhamos com conceitos como Objetos do Conhecimento e Cadeias de Conhecimento.

Em um momento em que todos querem repensar a Universidade, devemos questionar não só as bandeiras que decoram nossos castelos, mas a própria fundação dos mesmos.

Criar cursos mais flexíveis, baseados no conceito de Habilidades (ou Competências)  pode ser o caminho da inovação e criatividade tão desejados nesse país.