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O Erro da Fé no Diploma 21/08/2009

Posted by gxexeo in Opinião.
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Por razões históricas, o Brasil é o país do diploma. O sonho típico da mãe brasileira é que seu filho tenha um diploma e um emprego público, com aposentadoria integral. Quando disse que o diploma é apenas um certificado de fim de curso e que não garante a competência, recebi respostas bastante eloqüentes. Algumas defendiam a visão que o curso do qual participava era bom o suficiente para que seus egressos fossem gerentes de projeto. Outros citavam o fato que o diploma é a habilitação para a profissão.

Ambas respostas estão erradas.

É verdade que, no Brasil, o diploma, para algumas profissões, é a habilitação da profissão. Isso não uma verdade absoluta no mundo ou em nosso país.   Aqui, em especial, a Advocacia exige a prova da OAB e a Medicina exige a residência, agora obrigatória. Na Engenharia e na Psicologia basta o diploma, mas ele exige um mínimo: o estágio obrigatório. E, pelo menos na Engenharia, se discute se isso é válido ou se deveria existir uma prova de certificação. Dizer que o diploma é a habilitação é simplesmente identificar como solução o que eu digo que é o problema.

Mas a minha questão principal é que o diploma não dá competência automaticamente, e muito menos as competências transformadas em privativas na proposta de lei.

Os estudos clássicos de competência a dividem em três características: conhecimento, habilidade e atitude (CHA). Alguns mais novos ainda incluem valor. Um curso de graduação pode oferecer e avaliar fortemente apenas conhecimento. Podemos também incluir alguma coisa de habilidade, atitude e valor, mas devemos aceitar o fato que não temos tempo suficiente para treinar todas as habilidades para as quais fornecemos algum conhecimento e muito menos incutir conceitos de atitude e valor em todos os nossos alunos.

O recém-formado, o diplomado, é preparado para iniciar uma carreira, não é preparado para as atividades mais “nobres” da mesma, apesar de receber algumas “pinceladas” sobre isso. Ele possui conhecimentos incompletos (e por isso os MBA, cursos de extensão e de mestrado estão lotados), habilidades não desenvolvidas e muitos problemas de atitude e valor, até mesmo pela sua baixa idade, imaturidade e inexperiência.

Em um curso típico de Ciência da Computação ele recebe uma gama de conhecimentos básicos de longo prazo e um número razoavelmente restrito de conhecimentos específicos, basicamente tecnologias com prazo de vida, aplicáveis em curto prazo.  Todos estamos cientes  que, após formado, é necessária uma formação continuada, tanto nas questões tecnológicas, para que se mantenham atualizados, quanto em questões de longo prazo, mas para as quais não estavam preparados ou não tinham a maturidade suficiente.

Olhem ao seu redor. A experiência não faz diferença? A capacidade pessoal não é avaliada e recompensada? Não existem profissionais com conhecimentos, habilidades, atitudes e valores diferentes? E o diploma, qual a verdadeira importância disso?

Os argumentos que foram apresentados disseram: um recém formado, pelo poder do diploma ou a qualidade da minha universidade, é capaz de realizar tarefas como gerenciar projetos, providenciar laudos, ser responsável técnico. No mínimo, é um argumento ingênuo.

Eu pergunto, e se ele passou com nota 5,0? E se demorou 10 anos para se formar? E se pulou de faculdade em faculdade procurando o curso mais fácil? E se ele se formou no “pior curso do Brasil”?

A lei proposta, que no Brasil é interpretada de forma estrita, exige apenas o diploma. Ela não analisa o responsável técnico na sua capacidade, mas analisa apenas se ele cumpre um requisito, que pode ser facilmente comprovado por um burocrata qualquer.

Certas coisas não devem ser escritas, não devem virar lei. Nós temos uma prática, nós sabemos reconhecer a competência. Nós podemos discutir facilmente quem é e quem não é competente para praticar as atividades que foram consideradas privativas. Por que, então, criar uma lei que acaba com a discussão e coloca, como solução, uma que favorece a burocracia sobre o bom senso?

Meu ponto é esse: a proposta de lei, que deve ser interpretada de forma estrita, torna iguais os que não são iguais. Perante a justiça e a sociedade uma assinatura de um recém formado passa a valer o mesmo que a assinatura de um profissional com 30 anos de experiência. Ou seja, a lei vai contra a lógica e a prática do mercado e da sociedade. Qualquer jurista diria que isso é um erro.

Por isso, ela prejudica a sociedade.

Opinião sobre a regulamentação com exclusividade 20/08/2009

Posted by gxexeo in Opinião.
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Seguem alguns comentários sobre o parecer aprovado pela Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania do Senado  que “…dispõe sobre a regulamentação da profissão de Analista de Sistemas e suas correlatas…”

A única questão importante é o parágrafo único do artigo 4º , todo o resto, confesso, é de pouca relevância: “É privativa do Analista de Sistemas a responsabilidade técnica por projetos e sistemas para processamento de dados, informática e automação, assim como a emissão de laudos, relatórios ou pareceres técnicos.”

Nos próximos parágrafos vou dizer por que essa exclusividade  é ruim, no sentido de prejudicar a sociedade e até mesmo os futuros analistas de sistemas.

A visão cartorial brasileira confunde diploma com competência. O diploma é um certificado que você acabou um curso. Para quais trabalhos um recém formado em qualquer curso de graduação em Informática seria contratado? O mais comum é o de programador. Simplesmente porque um recém formado é incompetente para ter a responsabilidade técnica por um projeto ou sistema. Mas a lei permitirá que sejam, e que só os possuidores do diploma sejam. Isso é prejudicial a sociedade.

Além disso, a lei da exclusividade da responsabilidade técnica para os Analistas de Sistemas. Ora sistemas de processamento de dados, informática ou automação são, em sua grande maioria, desenvolvidos para outras áreas de aplicação que não a informática. Suas principais características não são os laços e decisões, os módulos ou componentes, os modelos e os programas. Sua principais características são os conhecimentos dos domínios de aplicação. Segundo a lei, o único responsável técnica, por imposição da exclusividade imposta, será o Analista de Sistemas. Ou seja, ele será responsável, inclusive perante a justiça, pelo conhecimento fornecido por outras pessoas. Isso é prejudicial ao Analista de Sistemas.

A informática não é uma profissão fim, mas sim aplicada, um meio pelo qual alcançamos, ou tentamos alcançar, os fins característicos de outras profissões. Fazemos sistemas para auxiliar médicos, engenheiros, administradores, políticos, contadores. Esses sistemas devem ser construídos por equipes multidisciplinares. Dar exclusividade da responsabilidade técnica supõe super-poderes do analista. Confiante demais na sua superioridade garantida pela lei, os novos Analistas de Sistemas ficaram em posição incompatível com a necessidade de servir seus clientes. Isso é prejudicial a sociedade.

A lei também generaliza os poderes que dá a qualquer formado. Quantos receberam a formação para fazer simultaneamente sistemas de informação e sistemas de automação?  A lei torna igual o que não é igual e infere competências que talvez não tenham sido desenvolvidas pelos profissionais. Isso é prejudicial a sociedade.

Aprendi com a Prof. Claudia Bauzer Medeiros que manipular a informação, e é isso que fazemos, é um direito de todos. Dar qualquer exclusividade sobre a capacidade de produzir, manter ou operar, ou mesmo opinar sobre sistemas de informação a apenas um grupo da sociedade cria cidadãos privilegiados e retira de todos os outros direitos básicos. Isso é prejudicial a sociedade.

Finalmente, choca a lei ir contra a realidade do mercado e da academia. Em todo mundo software, principal contribuição da informática, é feito por qualquer um. Empresas como a Microsoft possuem em seus quadros milhares de pessoas formadas em áreas não técnicas fazendo tarefas como projeto de produto, testes ou até desenvolvimento. Um dos maiores especialistas do mundo em Comunicação Humano-Computador é um psicólogo. Matemáticos, físicos, engenheiros são nossos aliados constantes na solução de problemas dificílimos. Por que então limitar a atuação no Brasil? Isso é prejudicial a sociedade.

E os impactos práticos? Daqui a pouco veremos leis proibindo o governo de comprar um produto de sofware que não tenha um responsável técnico. Solução: “responsáveis” serão contratados para assinar. Laudos sobre artefatos como o sistema eleitoral não poderão ser feitos por matemáticos que entendem de criptografia, ou por engenheiros que entendem de comunicações ou mesmo por especialistas em segurança, pois são sistemas de informação, e a nós, Analistas de Sistemas, cabe a verdade absoluta!

São esses meus motivos. Certamente pensando mais, encontrarei mais. Até agora não encontrei um único motivo para ser a favor da regulamentação. O mercado regula. Diplomas não regulam, diplomas enganam. A OAB é a maior prova disso: milhares de diplomados não passam em sua prova, e mesmo nos aprovados há os advogados competentes e os incompetentes.

Afirmo que entre os a favor da exclusividade existem três grupos extremamente preocupantes: os políticos que querem votos, os profissionais do sindicalismo e credenciamento e os incompetentes possuidores de diploma, que temem a concorrência. Outros dois grupos, com os quais há possibilidade de diálogo, são os verdadeiramente preocupados com a suposta qualidade oferecida  à sociedade e aqueles que querem apenas se equiparar com os engenheiros e médicos.

A competência é estabelecida caso a caso, pela carreira de cada profissional e não apenas pelo primeiro diploma que possam pendurar na parede.

Regulamentar a profissão pode trazer vantagens em um país cartorial como o nosso. Criar áreas de atuação exclusiva é um desserviço a sociedade e ao profissional.

Estão regulamentando a profissão. 19/08/2009

Posted by gxexeo in Opinião, Reportagem.
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A Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania aprovou hoje um parecer que “…dispõe sobre a regulamentação da profissão de Analista de Sistemas e suas correlatas…”

Em seu Art 4º, no parágrafo único diz: “É privativa do Analista de Sistemas a responsabilidade técnica por projetos e sistemas para processamento de dados, informática e automação, assim como a emissão de laudos, relatórios ou pareceres técnicos.”

Pronto! Instalou-se no país do cartório mas uma das besteiras das que nos assolam e que tanto tenho ouvido nos últimos anos. Logo após o Supremo Tribunal Federal acabar com regra semelhante que valia para o jornalismo, o Congresso, de certa maneira em confronto com o STF e não entende as recomendações da SBC.

Lembro a todos: a informática só existe com seus especialistas de domínio e seus usuários. A responsabilidade técnica de um sistema médico pode ficar na mão de um informata? Eu não quero essa exclusividade. Como diria um amigo “Para o mundo que eu quero saltar”.

Eu já escrevi tanto sobre isso que me faltam palavras.

Yes, we can´t 07/08/2009

Posted by gxexeo in Opinião, Reportagem.
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Assisti, hoje, palestra do Prof. Lívio Amaral, Diretor de Avaliação da CAPES .  A palestra foi destinada a coordenadores e diretores de pós-graduação da UFRJ. Mostrando bastante conhecimento e competência sobre o assunto, provavelmente por estar envolvido com o processo de avaliação já há algum tempo, foi bastante simpático à platéia, porém pouca esperança nos deu de que as coisas podem melhorar.

Ao contrário do que esperavam alguns, nós, coordenadores fomos muito educados. Eu, pelo menos, recebi uma reclamação que “bati pouco” enquanto fazia minha pergunta. Para completar, por um acaso do momento, não consegui obter minha resposta.

Ao sair de lá e considerar as apresentações e as perguntas sendo feitas, ficou claro que o grande problema é que a avaliação CAPES não existe mais. O que existe é a medida de quantos artigos foram publicados dentro dos estratos do Qualis.

Qual o problema? Bem, de saída incentivar a publicação científica não é nem um dos objetivos da CAPES! Seu principal objetivo é a formação de recursos humanos de alto nível. E alguém já viu o impacto disso na ficha de avaliação?

Todos estão preocupados com o Qualis, e claramente todos estão sendo compelidos a conformar os programas que gerem para atendê-lo. Os cursos novos estão montando seus quadros de maneira pragmática, para obter pontos e serem aprovados. Os cursos antigos estão reorganizando seus quadros, excluindo e incluindo professores, discutindo o que fazer com os recém-contratados e até mesmo, como me foi narrado por uma coordenadora do Nordeste, enfrentando dissidências que acreditam ser capazes de montar um curso melhor avaliado se tiverem menos pesquisadores.

Considerando esse quadro, as questões acabam se resumindo em duas:

Como evitar que os programas de pós-graduação adotem uma abordagem pragmática e orientem sua estratégia de forma a atender as orientações do Qualis, que representam uma avaliação do passado e não uma direção para o futuro? Essa foi minha pergunta não respondida.

Não seria melhor que o Qualis fosse de “tal jeito”? Para essa pergunta, a resposta normalmente foi “Seria, mas é inviável”.

Ou seja, ao contrário de Obama, a CAPES responde “Yes, we can´t”.