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Apenas 22 Engenharias? 28/07/2009

Posted by gxexeo in Opinião.
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O Ministério da Educação e Cultura abriu consulta pública sobre dois documentos: um referencial para 22 cursos de Engenharia e uma lista de conversão das denominações antigas para denominações novas.

Antes de opinar sobre a proposta feita, é importante dizer que a própria proposta já nasce de um erro básico: supor que limitar o conceito de Engenharia em um grupo fixo de modalidades é uma boa idéia para o país.

“Ingenerare”, a palavra em latim que serve de raiz para Engenharia, significa “criar”.  Engenheiros criam objetos ou abstrações, como processos.

Apenas para possuirmos uma definição que ilustra nossa opinião, podemos citar o Conselho Americano de Engenheiros pelo Desenvolvimento Profissional, que em 1947 definiu Engenharia como:  “A aplicação criativa de princípios científicos para projetar ou desenvolver estruturas, máquinas, aparatos, ou processos de manufatura, ou trabalhos que os utilizam isoladamente ou em combinação, ou construí-los ou operá-los com total conhecimento de seu projeto, ou projetar seu comportamento em condições operacionais específicas, em respeito a uma função pretendida, economia de operação ou segurança a vida e propriedade”.

Engenharia é um modo de desenvolver, operar e manter, sistematicamente e com base científica ou empírica, objetos ou processos que envolvem, de alguma forma, o engenho humano.

Basicamente, o Engenheiro cria soluções, aplicáveis em várias áreas. Ele usa os conhecimentos de Engenharia como método. A própria divisão da Engenharia em áreas indica que Engenharia não é uma profissão específica, mas uma visão generalizada que pode ser especializada em diferentes áreas de problema.

Limitar a Engenharia a 22 denominações, cada uma com uma especificação restritiva, implica em reduzir a capacidade humana de resolver problemas, congelar no tempo e inibir a inovação.

Ao eliminar as ênfases, a lista erra por desconsiderar a necessidade de especialização. Ao separar cursos em modalidade e ênfase, o objetivo era deixar claro qual a formação do egresso. Eliminar a ênfase significa dar ao egresso, e aos seus “clientes”, a impressão de uma capacitação não-existente e, simultaneamente, não reconhecer sua especialização em um tema de interesse.

Em especial, a lista de 22 denominações já nasce antiquada. Ela confunde, na tabela De->Para o que é Engenharia de Computação com o que é Engenharia de Software.  Ela elimina a Engenharia de Petróleo, que é uma junção de vários conhecimentos e não pode ser classificada unicamente como Mecânica, Química ou de Minas. Ela elimina a Engenharia Hídrica e a Engenharia Sanitárias, confundindo-as com as Engenharias Civil e Ambiental. Ela elimina a Engenharia de Bioprocessos para confundi-la com a Engenharia Química.

Uma das motivações do MEC parece ser a facilitar a avaliação dos cursos. Supondo que as IES brasileiras não possuem um comportamento autista, todos os cursos atuais atendem alguma demanda da sociedade. Tentar enquadrar esses cursos criados por demanda local em um número limitado de Engenharias para atender a capacidade da burocracia de manipular esses cursos é colocar a sociedade a reboque da burocracia, o que é um dos erros conceituais mais graves dessa proposta.

O modelo correto, ao contrário do que esse movimento do MEC indica, é estudar os verdadeiros critérios que caracterizam a Engenharia. Atualmente esses critérios se resumem em currículos básicos que demonstram mais uma vez um visão retrógrada da Engenharia. O que precisamos é discutir quais as verdadeiras características dos Engenheiros, que incluem a capacidade de modelar, criar predições e buscar soluções economicamente viáveis e possivelmente ótimas.

Os esforços que serão gastos na discussão de uma visão intervencionista, burocrática e conservadora poderiam ser bem mais eficazmente utilizados na busca do que são os desafios da Engenharia no século XXI, especialmente frente a realidade brasileira.

Comentários»

1. Daltro - 29/07/2009

Xexeo. Concordo com muitas coisas que disseste mas, eu acho que vale o velho ditado ” nem tanto ao mar nem tanto a terra”.
Eu continuo achando que um curso nao pode ser criado
com base no marketing, porque e’ bonito, porque e’ novo etc.
Isso e’ enganador e sinto pena dos alunos que caem na armadilha.

Abracos,

Daltro

2. Celso Luiz Lopes Rodrigues - 30/07/2009

Concordo com o Professor Xexeo, e vejo o máximo de propriedade em suas colocações. Quanto a existirem denominações “marqueteiras”, não será com uma delimitação puramente “nominal” que se vai evitar a “picaretagem acadêmica”. E é muito melhor que um aluno saiba que vai fazer exatamente “Engenharia Civil Costeira e Portuária”, e que não poderá se arvorar em projetista de estradas, do que lhe conferir um título supostamente genérico de “Engenheiro Civil”, quando seu curso o forma visando uma demanda específca, associada a um certo espaço de formação e consequente empregabilidade. A oferta de múltiplas terminaliddaes em Engenharia não é apanágio brasileiro. Uma única universidade inglesa (Brunel) oferece diversas variantes bem interessantes:

Aerospace Engineering – BEng/MEng
Aviation Engineering – BEng/MEng
Aviation Engineering with Pilot Studies – BEng/MEng
Civil Engineering with Sustainability – BEng / MEng
Communication Networks Engineering BEng/MEng
Computer Systems Engineering – BEng/MEng
Electrical Engineering with Renewable Energy Systems – MEng
Electronic and Electrical Engineering – BEng/MEng
Electronic and Electrical Engineering (Communication Systems) – BEng
Electronic and Computer Engineering – MEng
Electronic and Microelectronic Engineering – BEng
Internet Engineering – BEng
Mechanical Engineering – BEng/MEng
Mechanical Engineering with Aeronautics – BEng/MEng
Mechanical Engineering with Automotive Design – BEng/MEng
Mechanical Engineering with Building Services – BEng/MEng
Motorsport Engineering – BEng/MEng
Networked Media Engineering BEng /MEng
Product Design Engineering – BSc

e até
Foundations of Engineering – BEng (4 or 5 years enhanced degree programme) http://www.ceebd.co.uk/ceeed/un/uk/engineering_design_brunel_university.htm

3. Álvaro Martins - 24/12/2009

Após o Decretão foi criada a Resolução Confea 218/1973 que concede as atribuições aos engenheiros formados até 2011. A partir desse ano, começarão a se formarem os engenheiros que iniciaram o curso em agosto/2007 e estarão sob a concessão de atribuições pela Resolução Confea 1010/2005, que entrou em vigor totalmente a partir de agosto/2007 (com os anexos). A 1010 possui várias falhas, porém, tem o mérito de tentar ser matricial e prover as atribuições de acordo com a grade curricular e, portanto, disciplinas cursadas… Essa condição não deveria restringir ao engenheiro o tratamento unívoco por apenas uma Câmara Especializada de Engenharia dentro dos respectivos CREAs e sim abrir o leque de possibilidades de atribuições… Limitar a qualquer número a modalidade fica evidente que a vocação regional e a criatividade ficam prejudicadas. Na região de Camaçari, por exemplo, o petróleo é uma vocação… Não considerar que a população local não possuía a formação básica para absorver os conhecimentos específicos e especializados e houve necessidade de importação de profissionais de outras regiões… Às Universidades, dentro de certos critérios deve ser permitida a criação das ênfases… e por aí vai, em favor da criatividade, oportunidade, reciclagem de conhecimentos e, especialmente, utilização de novos conhecimentos científicos.


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